Coordenadas M - 947.773 (f. 331, 1980), reportadas ao conjunto da fortaleza em geral, e mais especificamente ao seu interior onde se encontra instalada a igreja de Santa Maria do Castelo. Documentado (o castelo) desde Setembro de 1173 (Doação à Ordem de Santiago).
Vestígios arqueológicos assentes sobre formações da série negra do Sudoeste Peninsular do Pré-Câmbrico.
A/B Um machado de calaíte verde, encontrado em 1969, no meio do entulho removido de um fosso, situado no interior do palácio dos governadores, durante uma campanha de restauro levada a cabo pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Tendo sido levado em Junho de 1986 para o Departamento de Arqueologia do IPPC / Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (Belém, Lisboa), pela arqueóloga Dr.ª Ana Isabel Santos, ao tempo membro da Comissão Reorganizadora do Museu D. Lopo de Almeida, para estudo e desenho.Tanto quanto nos foi dado averiguar, não lhe era conhecido qualquer paralelo nacional e chegou a ser-lhe apontada uma cronologia aproximada de 2000 a.C. (HORTA PEREIRA, 1985).
- Dois machados de pedra polida, tendo um deles sido encontrado à profundidade de 1, 60 metro, em 24.10.1944, quando se procedia à abertura de caboucos para um novo parque militar, e o outro um pouco adiante da carreira de tiro, igualmente no decurso de obras militares; ambos são peças com paradeiro desconhecido (OLEIRO, Bairrão, 1951).
- Uma taça de cerâmica, aparecida no interior da torre de menagem, aquando dos preparativos para a implantação do depósito de água da cidade, por volta de 1940; foi também levada em 1986 pela Dr.ª Ana Isabel Santos, para estudo e desenho, também ainda sem regresso. Cremos bem que seria a esta peça que Maria Amélia HORTA PEREIRA se quis referir no Simpósio de Mação (4.3.1988), quando aí apresentou Cerâmica do Bronze Final na Fortaleza de Abrantes.
- Xorca de bronze, citada por HORTA PEREIRA (1985), cujo paradeiro desconhecemos, peça igualmente datável do Bronze Final (1200 a 850 a.C.).
- Também Leite de VASCONCELOS (1915: 181) assinalou Materiais indeterminados do Eneolítico e da Idade do Bronze referidos a Abrantes, mas sem mais pormenores.
- Cerâmicas brunidas e espatuladas foram observadas na base do torreão Sul [EST. XXXV A XLVI] e [Fotos 97 e 98], onde se recolheram ainda: um pingo de fundição e uma pequena argola em bronze, a par de alguns fragmentos ósseos, decerto resíduos de alimentação. Estruturas de argila batida e compactada [Foto 99], associadas a cerâmica típica do Bronze Final / Idade do Ferro, foram por nós observadas também junto à base do torreão Leste, nas traseiras da igreja [EST. XLVII], aquando do último desmoronamento da muralha [Foto 100].Estátua romana acéfala, encontrada nos primórdios do século XX no interior da igreja, deitada na horizontal com o dorso para baixo a um metro de profundidade, eventualmente datável do governo de Adriano [Foto 101]. Segundo Diogo Oleiro, aquando do seu levantamento, foram observadas estruturas na diagonal relativas à capela-mor, orientadas para o Casal da Graça - Valhascos - Sardoal. - Árula anepígrafa, recolhida na década de 50 no exterior do castelo pelo guarda do Museu, junto à muralha poente, exemplar bastante grosseiro e de arestas boleadas (CANDEIAS SILVA e ENCARNAÇÃO, 1982, n.º 6, foto 5) [Foto 102].
- Placa de mármore branco, paralelepipédica (113 x 40 x 15 cm), com inscrição muito sumida; serviu antigamente de degrau ou soleira de porta, no exterior do castelo, sendo esta a razão por que se apresenta muito desgastada e praticamente ilegível. Aliás, este foi também o motivo de ter sido omitida no Catálogo de Epigrafia Romana (1982); mas, tendo recentemente sido objecto de reanálise por parte do Prof. José d'Encarnação, este foi peremptório em dá-la como romana. Trata-se de um exemplar muito tosco, pois o canteiro apenas se terá preocupado com a face da inscrição. Esta estava gravada num campo epigráfico com cerca de 25 cm de altura (no sentido da largura do bloco), bordejado por uma moldura simples e nitidamente encostada ao topo superior, reconhecendo-se-lhe hoje apenas quatro letras, bastante irregulares, com cerca de 4 cm cada uma: RC ::: / IP ::: / ... Encontrava-se inédita [Foto 102 - A]. Cerâmica de construção, designadamente fragmentos de tegulae, (tendo um dos fragmentos, com o n.º 131 de inventário, sido encontrado nas escarpas do castelo) e lateres (elementos do fuste de uma coluna, da qual se encontraram sete tijolos triangulares, todos na escarpa Norte - n.º 107 do antigo inventário).
- Mós manuárias, sendo uma delas volante (n.º 44, do antigo inventário) e outra dormente (n.º 46), esta encontrada aquando do desaterro da porta da traição [Foto 103] . Moedas várias, sendo duas de Calígula (37-41 d.C.), encontradas junto ao topo Norte da parede exterior da igreja-museu, uma de Galieno (253-268 d.C.), e outras indeterminadas, achadas no exterior, nos fossos do castelo e na encosta Leste até à calçada velha de S.José, em poder de particulares (Diogo OLEIRO, 1952: 9).
- Ara a Jupiter Optimus Maximus: Esteve exposta no Museu D. Lopo de Almeida, a título de depósito por parte do Sr. João Estrada Júnior. Embora pairem algumas dúvidas quanto à sua origem, é de presumir que seja originária desta freguesia e mesmo desta área arqueológica. É de mármore branco e apresenta-se com alguns problemas de leitura, mormente na 2.ª linha, que parece ter sido apagada a propósito e de longa data; também a 3.ª e última linha denota especificidade, já que nela se lê claramente VOLVM (em latim quero, supostamente quero dedicar este monumento ao deus...), em vez do esperado VOTVM (Voto a Júpiter Óptimo Máximo). Trata-se, em boa verdade, de uma epígrafe pouco usual, mas inteiramente fidedigna, e daí o seu acrescido interesse; isto para além de assinalar em Abrantes, pela 1.ª vez na cidade e pela 2.ª no concelho (vide Alvega), o culto a esta divindade máxima do panteão romano [Foto 104]. Será oportunamente objecto de publicação no Ficheiro Epigráfico (suplemento da Conímbriga), aí com maior desenvolvimento.
A/B Povoado. C Castelum (?), incluindo hipotético santuário (?), hipótese a seguir com muita atenção.D Castelo (com igreja cristã, a partir dos finais do século XII / princípios do XIII).
A/B Calcolítico, Bronze Final e Idade do FerroC República romana, Baixo e Alto ImpérioD Idade Média.
OLEIRO, Bairrão (1951), OLEIRO, Diogo (1952), CANDEIAS SILVA (1981-b), CANDEIAS SILVA e ENCARNAÇÃO (1982), HORTA PEREIRA (1985), CORREIA, Susana et alii (1988) ALARCÃO (1988-a, 5/61), SOUSA (1990), BATATA, GASPAR e BATISTA (1996), FÉLIX (1997)
Pesem embora a quantidade e a qualidade significativas das peças arqueológicas encontradas na área do Castelo, continua a não ser fácil estabelecer uma síntese credível; pois, sem um plano de estudo do conjunto, que prova tudo isto, afinal? Parece indesmentível que o morro teve uma ocupação mais ou menos prolongada, desde os finais da Pré-história até pelo menos à Alta Idade Média, mas pouco mais poderemos adiantar, quer em relação ao tipo de povoamento no período Proto-Histórico e Romano, que se afigura importante, quer mesmo a uma eventual ocupação Visigótica e Muçulmana (a ausência desta última poder-se-á dever mais a factores de investigação do que propriamente à sua ausência na área, dada a ocorrência, por exemplo, de cerâmicas árabes do século X/XI na Sertã - BATATA, 1998: 74-75) e mesmo ainda em relação à necrópole da Baixa Idade Média ou à existente na parte exterior da Igreja, eventualmente posterior. Faltam, como é óbvio, escavações. A verdade é que a única intervenção até agora feita numa zona sensível (a capela-mor da igreja), a preceito e pelo departamento competente (IPPC), foi paupérrima: teve lugar no Verão de 1986, e não passou de uma pequena sondagem de emergência, inconclusiva, já que pouco ultrapassou três metros quadrados de área escavada (CORREIA, Susana et alii, 1988). E das escavações realizadas numa dependência da antiga alcaidaria, intra-muros, em 1985, pela Dra. Maria Amélia Horta Pereira Bubner, não conhecemos os resultados. Por conseguinte escavações sistemáticas e alargadas a toda a fortaleza precisam-se, pois é ali que residem, quase inteiramente desconhecidas, as autênticas origens de Abrantes.