Coordenadas 957.760 (f. 331, 1980). O achado ocorreu acidentalmente, a 12 de Agosto de 1951, sensivelmente a 100 metros da ribeira de Fernão Dias, 200 do Tejo e 15 acima do nível normal do rio. São excelentes terras de cultivo, de utilização quase permanente. Foi autor da descoberta o então feitor da Quinta, Sr. Jaime dos Santos Pequeno, quando lavrava o local
Vasta planura aluvial, quaternária, cota rondando os 30 metros (Tirreniano I)
O competente estudo da estação foi feito oportunamente pelo distinto arqueólogo abrantino Dr. João Manuel Bairrão Oleiro, na qualidade de relator nomeado pela então Junta Nacional de Educação, tendo posteriormente sido publicado (1962). Todavia, por considerarmos esse artigo pouco acessível ao leitor comum e reputarmos o achado uma das peças de maior valor arqueológico do concelho, damos de seguida alguns elementos sobre a estação, na sua maioria retirados, com a devida vénia, do referido artigo. 1 Estátua acéfala: Encontra-se exposta no Museu D. Lopo de Almeida, sob o n.º de inventário 50 [Foto 71]. Foi encontrada durante a realização de trabalhos agrícolas. Estava deitada sobre o dorso, metida dentro de uma cova preparada intencionalmente e defendida por oito pequenas pedras, formando como que uma cista. É de mármore, que não parece nacional, e de tamanho maior que o natural: Alt. - 2,10 metros; larg. de base - 85 cm; larg. no tronco - 70 cm. Foi já encontrada descabeçada, porém com uma cavidade apropriada para o encaixe da cabeça. Faltavam-lhe igualmente as mãos, que se ligavam aos antebraços por meio de espigões de ferro, ainda visíveis em parte. Trata-se de uma figura feminina, vestindo comprida túnica, cujas pregas chegam até aos pés, e, sobre ela, um manto que desce dos ombros, envolve os braços, cruza à altura do ventre, passa sobre o antebraço esquerdo e cai ao longo do corpo. A perna direita está flectida, o pé recuado e apoiado nos dedos, e o antebraço direito levemente erguido. Derivada de protótipos helenísticos dos séculos IV-III a. C., a enorme estátua, que Bairrão Oleiro considerou ser do século I, pode comparar-se, segundo ele, com muitas outras de várias procedências existentes em colecções estrangeiras. Deveria ser estátua retrato, pois, se a cabeça correspondesse a um tipo idealizado, não haveria, em obra de boa oficina, motivo para não ser fixa e feita pela mesma mão. Por outro lado, as dimensões permitem a hipótese (e sublinhamos a palavra) de tratar-se de um retrato de membro da família imperial. 2 Fragmento de mármore com inscrição: [...]DE[O?][...] / [...]NI[C?][...] / [...] [Foto 72] Foi estudado por um de nós, com José d'Encarnação, e publicado em 1982: 32-33, inscrição 5, para cujo texto remetemos o leitor mais interessado no assunto. Das pedras que se encontraram à volta da estátua foi a única que Bairrão Oleiro registou com interesse. Como se deduz da transcrição supra, nela se distinguem apenas quatro caracteres seguros, em duas linhas, que não são suficientes para formar qualquer palavra com um mínimo de garantia. Ocorre-nos como hipótese (e voltamos a sublinhar a palavra) o vocábulo muNICipius (?), o que nos levaria a admitir uma divindade municipal, com santuário nas proximidades (castelo de Abrantes?)... Mas tal não passa de mera conjectura. Tanto a paleografia, como as condições do seu achamento e ainda alguma semelhança do mármore, induzem-nos a admitir uma muito estreita relação entre este fragmento e a estátua. 3 Fragmentos de cerâmica grosseira (?): Do citado artigo / relatório de Bairrão Oleiro consta ainda o seguinte depoimento: Percorri atentamente o terreno lavradio da zona onde apareceu a estátua, sem ter encontrado mais que fragmentos de cerâmica grosseira, sobre cuja época me não atrevo a dar opinião segura. Pelo feitor soube que nunca tinham aparecido quaisquer restos de edificações, moedas ou outros testemunhos arqueológicos. Quando a escultura foi levantada também nada se encontrou. E assim persiste o enigma! Interpretação: A avaliar pelas condições do achado, pode admitir-se que o local tenha funcionado como um esconderijo, porventura de luso-romanos com medo da intolerância cristã, ou de cristãos desejosos de enterrar o culto pagão. Com efeito, não era raro sepultarem-se as estátuas dos vencidos. E vem a propósito lembrar que a outra estátua romana do Museu foi encontrada em idêntica posição e apresenta mesmo fortes semelhanças com esta. Teriam tido ambas uma origem comum? Só novas sondagens nos dois locais poderão esclarecer esta e outras questões
Esconderijo (?); Villa (?)
Alto Império (estátua do segundo quartel do século I d.C.)
Entretanto, já com este Inventário encerrado, novos elementos surgiram na Baeta, que poderão alterar a anterior interpretação e ajudar à resolução do enigma. Veremos