Coordenadas M - 888.797, à cota aproximada de 32 metros; entre Rio de Moinhos e Amoreira, junto à EN-3, sensivelmente ao Km 104,375. A descoberta da foice ocorreu quando se procedia à abertura de uma vala para canalização no interior da cerca, vala essa que atingiu uns 80 cm de profundidade. Por não termos presenciado o seu achado e só algum tempo mais tarde tomarmos conhecimento da ocorrência, não pudemos registar mais pormenores sobre a jazida. Todavia, tanto por informações orais colhidas in loco como pela observação directa do entulho proveniente da vala, não teria surgido mais nada digno de menção. Assinale-se, entretanto, que, na posterior abertura de uma outra vala, a uma dúzia de metros do sítio onde apareceu a foice, obtivemos alguns dados de estratigrafia vertical eventualmente idêntica, mas de qualquer modo também estéril do ponto de vista arqueológico. Presença humana assídua, havendo aqui a realçar um topónimo arcaico e bastante expressivo, derivado de um equídeo selvagem já desaparecido do território nacional, mas que era muito referido nos forais medievais.
Depósitos de terraços fluviais Q4, de 8-15 metros, do Plistocénico.
Foice em bronze.
- Medidas (em mm): - Arco dorsal: 132;
- Comprimento máximo conservado:121,5;
- Largura máxima: 46;
- Espessura máxima da lâmina: 05;
- Altura do talão: 21;
- Espessura máxima do talão: 07;
- Peso:135 gramas;
- Descrição: Trata-se de um exemplar já bastante gasto, a que faltam a ponta e grande parte do gume, mas de resto bem conservado [EST. XXXIV, Foto 70]. A face inferior é plana, apresentando apenas no início do primeiro terço uma rugosidade transversal irregular, característica que poderá ser atribuída a eventuais defeitos da pedra que fechava o molde aquando da fundição. O bordo exterior é formado por uma nervura desde o talão à ponta; o bordo cortante, apesar de ter perdido quase todo o gume inicial, decerto em virtude do desgaste provocado pelo uso, mantém ainda a sua concavidade e um suave bisel assimétrico a partir da nervura central, com excepção da zona de encabamento. Quanto à ponta, quebrada, dá mostras de uma pátina distinta da do resto da peça, podendo tal dever-se a fractura posterior ao seu abandono. O talão, ressaltado em semicírculo no sentido da face superior. - Análise: A fim de determinar o material utilizado e estudar a composição química da liga metálica, foram-lhe retiradas duas amostras, por perfuração: uma na base do talão e a outra no primeiro terço da lâmina. As análises foram efectuadas no Laboratoire d'Anthropologie Préhistorique de la Faculté des Sciences de l'Université de Rennes (França), por intermédio dos Srs. Profs. Thomas Bubner e André Coffyn, tendo os resultados da espectrografia destrutiva revelado a seguinte composição química percentual:
| Cu | Sn | Pb | Sb | Ag | Ni | Fe |
|---|
| 88 | 10,9 | 0,025 | tr | 0,03 | 0,01 | 0,001 |
| (88,8) | 11 | 0,04 | 0,005 | 0,04 | 0,03 | 0,002 |
(Fonte: COFFYN, 1998: 175).
Trata-se, assim, de um exemplar que integra bem o grupo dos bronzes binários (Cu + Sn) e no subgrupo dos bronzes de boa qualidade, com teores de estanho da ordem dos 10-12 % e com o cobre preenchendo a quase totalidade da porção restante, não se afastando do que é regra geral nas composições presentes neste tipo de artefactos no Ocidente da Península Ibérica. Com efeito, segundo Craig Merideth (1997: 146), uma percentagem de estanho dentro do intervalo 6-12 % é representativa de artefactos destinados a servirem como instrumentos de trabalho ou como armas que possuam uma extremidade pontiaguda ou um bordo cortante, artefactos que, depois de retirados do molde, seriam acabados mediante um processo de martelagem e forja. As foices de bronze, com funções indiscutivelmente utilitárias e conectadas com as actividades agrícolas, enquadram-se na perfeição no grupo metalúrgico dos bronzes binários de óptima qualidade, o que não será de estranhar face à função a que se destinavam.
Não são muitas as foices do Bronze Final conhecidas no nosso país: pouco mais de duas dezenas (até 1988), distribuindo-se pelo centro-sul e com maior incidência entre Tejo e Mondego. A máxima concentração de exemplares num só lugar surgiu no esconderijo de Coles de Samuel (Soure), com seis exemplares, seguindo-se-lhe o Porto do Concelho (Mação) e Mértola com dois cada (1). Todas essas foices apresentam a mesma tipologia de fabrico - o chamado tipo Rocanes (designação dada a partir de um exemplar com molde surgido no Casal de Rocanes, Cacém). Este modelo é o de maior difusão na Península, estendendo-se os seus paralelos para Leste até Monte-Sa-Idda (Cagliari, Sardenha) e para Norte até La Guardia (Pontevedra, Galiza (2). As foices de tipo Rocanes, ainda assim, variam em diversos pormenores: tamanho, curvatura da lâmina, número e disposição das nervuras, dispositivo para o encabamento; algumas apresentam mesmo um ou dois orifícios junto ao talão para poderem ser pregadas. Considerando todas estas particularidades, a nossa parece diferir de todas as mais, mesmo das de Mação, embora mantendo com estas grandes afinidades (3). Não dispondo de estratigrafia nem de paralelismos muito idênticos, não é fácil estabelecer uma cronologia fundamentada. Anotaremos apenas que os exemplares mais próximos (do Porto do Concelho) foram datados em torno de 850 a. C. (HORTA PEREIRA, 1970: 215). A foice da Quinta de Vale de Zebro traz ainda consigo a particularidade de nos alertar para outras implicações, designadamente de natureza económica. Sendo a primeira a surgir em Abrantes, no Vale do Tejo e mesmo junto a este rio, vem testemunhar a existência no período em apreço de uma economia agrícola nas suas margens férteis, com o cultivo de cereais. Por outro lado, para que esta tecnologia avançada aqui chegasse, temos de admitir o desenvolvimento de contactos comerciais, naturalmente por via fluvial, cada vez mais se afirmando a importância da linha do Tejo. Enfim, é toda uma movimentação e um progresso civilizacional da região, que já se presumia ou de que até já havia indícios, mas de que não havia provas bastantes.
A nova versão, conforme atrás se anotou, subscrita já também por Paulo Félix, foi recentemente publicada na revista Estudos Pré-Históricos vol. VII, 1999: 257-262. Pela sua importância, não devem ignorar-se também as recentes aportações de VILAÇA (1997: 136) e COFFYN (1998).
Acerca da freguesia de Rio de Moinhos não queríamos deixar de registar a referência a conheiras perto da sede de freguesia. A sua existência estaria confinada à margem direita da ribeira de Rio de Moinhos. Testemunho dessa antiga existência são as designações das Ruas da Conheira e Travessa da Conheira, para além de informações sobre a antiga profusão de seixos de quartzíte em toda aquela área.
Apesar de inédita, a nossa comunicação apresentada em 1988 ao Simpósio de Mação foi entretanto referida por Raquel VILAÇA (1995) e posteriormente objecto de reformulação com Paulo Félix (4).
Cf. mapa da distribuição em A. COFFYN (1985, carte 43).
Cf. Idem, ibidem, planche LVII; e HORTA PEREIRA (1970): 184 a 188, com destaque para as fig. 83 e 84.