Hipólito Cabaço, que foi quem primeiro e até hoje melhor explorou, por volta de 1960, as cascalheiras de terraços fluviais desta vasta margem sul do Tejo, não obstante o seu extraordinário contributo, não nos deixou as localizações precisas das suas recolhas. Sabemos que as fez nos 'terraços da ribeira de Coalhos', Quinta de Coalhos e Casal do Cascalho, mas tal não é o bastante para cartografarmos o sítio exacto da prospecção. Assim, por comodidade, preferimos juntar numa só designação ou estação todas as peças por ele recolhidas, até porque foram já todas estudadas e publicadas (HORTA PEREIRA, 1971). É, pois, muito provável que várias dessas peças sejam provenientes de alguma das estações seguintes. Porém, não havendo certezas, por as notícias que delas temos não serem precisas (na quase totalidade das referências) quanto à sua localização exacta, decidimo-nos por esta metodologia. Associamos, assim, nesta 'área' um conjunto de sítios arqueológicos um pouco mal definidos, todos com uma característica comum: a dependência da ribeira de Coalhos, afluente do Tejo, para o qual se encaminha no sentido SE-NW.
Coordenadas centradas em M - 970.765; imediações da Quinta de Coalhos, na margem direita da ribeira do mesmo nome. A paisagem foi humanizada de há muito, pois são bastas as referências documentais sobre a zona. A título de exemplo: Carreiro de Coalhos (documento de 1313), Porto e ribeira de Coalhos (Livro de Posturas de 1515). Hoje continua a ser uma área de grande fertilidade e em contínua expansão agro-industrial e mesmo urbana.
Os terrenos assentam em formações do Miocénico Superior e do Pliocénico, recobertas na planície por um manto quaternário de areias, cascalheiras e aluviões, de cotas variadas: Quinta de Coalhos, cerca de 40 metros (Mindel-Riss); Casal do Cascalho, cerca de 90 metros (Siciliano I); terraços da Ribeira, para montante, subindo até aos 100-120 metros.
Maria Amélia HORTA PEREIRA [1971], a arqueóloga que, como já referimos, estudou com rigor e minúcia todo o material paleolítico recolhido neste concelho por Hipólito Cabaço e que este devotado investigador doou ao Museu D. Lopo de Almeida, contabilizou ao todo 49 peças, das quais 33 traziam a indicação de Pego (Quinta de Coalhos e Casal do Cascalho) e 16 Ribeira de Coalhos. Quanto ao tipo de indústrias, foram as referidas peças classificadas do modo seguinte:
- Abevilense: núcleo semicircular, da Ribeira.
- Acheulense inferior: 2 raspadores laterais e 1 calhau truncado, da Ribeira.
- Acheulense Médio: biface, uniface [Foto 27], raspador lateral, lâmina e calhau truncado, do Pego; uniface, raspadeira, raspador lateral e 2 calhaus truncados, da Ribeira.
- Acheulense Superior: biface, 5 unifaces parciais, 2 raspadores laterais, 7 calhaus truncados, calote de Seixo e machadinha, do Pego; 3 raspadores laterais, 2 calhaus truncados, núcleo e ponta, da Ribeira.
- Acheulense Superior, passando a Languedocense: 5 unifaces parciais e instrumentos aparentados, calhau truncado, núcleo, disco e ponta, do Pego.
- Acheulense Superior, Mustieróide: raspadeira e disco, do Pego.
Acampamento/ oficina de talhe.