Coordenadas N - 029.811 (f. 322, 1946), a cerca de 250 metros do cemitério da freguesia para Oeste, na coroa de um outeiro mais comprido que largo, rondando a cota dos 160 metros. No local foi recentemente construído um Centro Social para a Terceira Idade, denominado ACATIM, alterando por completo a paisagem originária.
Formações gnaisso-migmatíticas do Pré-câmbrico Superior, constituídas, entre outros elementos, por paragnaisses e migmatitos pertencentes ao substrato hercínico.
Esta estação é conhecida desde os fins do século XIX, pelo menos, altura em que dali foram levadas para o Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (Lisboa) duas interessantes placas funerárias (1). Não ficaram desse tempo registados mais pormenores sobre o local, designadamente acerca das condições em que se verificaram os achados, tipo das sepulturas que cobririam ou outro eventual espólio; contudo, a avaliar pela área de dispersão do material arqueológico ainda hoje detectável, superior a dois hectares, bem como pelo recente aparecimento nas proximidades de mais duas epígrafes - o que faz desta estação a maior centração epigráfica do concelho e da região -, é fora de dúvida que nos encontramos em presença de um antigo povoado sobremaneira importante, mau grado o seu alto grau de delapidação e a que o actual topónimo, se bem que sugestivo, já não confere nenhum realce. Efectivamente, se "aldeias" houve por ali, nem uma casa sobrou; e dos tempos da dominação romana muito poucos vestígios restam hoje à superfície, para além da específica cerâmica de construção (tegulae, imbrices e lateres) e de algumas estruturas de pedra.
- As inscrições:
1 Epitáfio de AVITUS [Foto 22]
Leitura: AVITVS . TON/GI . F(ilius) . AN(norum) . LX (sexaginta) / H(ic). S(itus) . E(st) / S(it) . T(ibi) . T(erra) . L(evis). Este epitáfio, que é datável do século I, assinala a sepultura no local de um indígena romanizado, Avitus, falecido com 60 anos. É de notar que este nome, apesar de latino, significando "o primogénito, o mais velho", costuma aparecer em áreas de romanização recente, e que o nome do pai, Tongius, é claramente de raiz pré-romana e se documenta exclusivamente na Lusitânia.
Bibliografia: Foi publicado em 1899 por Hubner, Ephemeris Epigraphica, "Additamenta nova ad corporis volumen II", IX, 1899: 19, n.º 22, e mais recentemente por CANDEIAS SILVA e ENCARNAÇÃO (1982: 28), donde extraímos os tópicos essenciais.
2 Epitáfio de DECUMUS [Foto 23]
Leitura: DECVMVS / PLACENTIAE / FILIVS . ANN(orum) . XII (duodecim) . / H(ic). S(itus) . E(st) . S(it) . T(ibi) . T(erra) . L(evis). / PLACENTIA . ET . IVLIA / FILIO . F(aciendum) . C(uraverunt).
Tradução: "Aqui jaz Décumo, filho de Placência, de 12 anos. Que a terra te seja leve! Placência e Júlia mandaram fazer ao filho (da primeira)". Do mesmo modo que o anterior, é texto datável do século I e, do ponto de vista cultural, também indiciador de romanização recente dos diversos intervenientes.
Bibliografia: Tal como o anterior, foi publicado por Hubner (ibid.: 19, n.º 23), e por CANDEIAS SILVA e ENCARNAÇÃO (ibid.: 30).
3 Ara votiva a ALVA (?) [Foto 24]
Foi encontrada durante as obras de reconstrução da igreja matriz, em 1960, soterrada na plataforma frontal do altar-mor, mas pode com forte probabilidade presumir-se que tenha sido deslocada das Aldeias. Ao presente localiza-se numa dependência do Museu Etnográfico e Arqueológico da Junta de Freguesia.
Leitura: M(arcus?) IOMELI(us?) / CATRO TANG/INI F(ilius) ALVA / V(otum) A(nimo) L(ibens) S(olvit).
Tradução: "Marco Iomélio Catrão, filho de Tangino, cumpriu de bom grado (a sua promessa) a Alva (?)". Embora o texto deste monumento continue a suscitar ainda algumas dúvidas de interpretação no tocante à divindade cultuada, por falta (?) do dativo, é incontestável o seu interesse; pois, além de ser a primeiro altar votivo até agora surgido no concelho de Abrantes, veio revelar mais uma divindade indígena da Lusitânia, cujo alcance histórico está longe de definido. Com efeito, não passa por enquanto de mera conjectura, mas de Alva poderá ter derivado Alvega e os habitantes do território / região onde se prestava culto a Alva poderiam muito bem ter sido os "Alvantes" ou "Albantes", etnonímico que, por evolução fonética (metátese), poderia ter evoluído para ABLANTES > Abrantes... É também datável do século I.
Bibliografia: CANDEIAS SILVA (1982); Idem e ENCARNAÇÃO (1982: 26); ENCARNAÇÃO (1987: 15).
4 Epitáfio de TALTICUS [Foto 25]
Tal como a epígrafe anterior, proveio esta placa das obras de demolição e posterior reconstrução da igreja matriz de Mouriscas, sendo muito provável que também fosse originária das Aldeias. Encontra-se também exposta no Museu da Junta de Freguesia e faz lembrar na matéria e na forma a placa de Avitus. Apesar de fragmentada, o seu texto não oferece problemas de reconstituição.
Leitura: TALTICVS / ARCONIS / F(ilius) H(ic) S(itus) E(st). S(it) T(ibi) T(erra) L(evis).
Tradução: "Aqui jaz Táltico, filho de Arcão. Seja-te leve a terra!". Tudo nesta inscrição é simples, à boa maneira indígena, a onomástica pré-romana, a indiciar uma romanização de fresca data, havendo a notar ainda que o nome Táltico também apareceu em Alvega e Belver. A sua datação pode situar-se seguramente no século I.
Bibliografia: CANDEIAS SILVA (1987-a e 1987-b).
Materiais cerâmicos:
1 Cerâmica de construção (fragmentos de tijolos de coluna, tegulae, imbrices, lateres; certos fragmentos de ímbrices apresentam dedadas serpentiformes no sentido do comprimento, enquanto outras são rectilíneas;
2 Cerâmica comum: fragmentos de dolia (bordos, fundos e paredes), havendo um com asa decorada a pequenas linhas incisas formando círculos e um outro decorado com aplicação plástica de corda impressa; fragmento de ânfora (fundo); pondera (4 pesos de tear, dois dos quais com marca de oleiro nos topos superiores - X e \//\); e restos de vasos diversos, entre os quais um testo em arenito (diâm. 86 mm) (2) . Materiais vítreos: Bordo pertencente, talvez, a uma taça de copa arqueada e bordo engrossado ao fogo, datável do séc. IV / inícios do V d.C.. Estruturas: Aquando da construção do edifício da ACATIM (1992), foram observadas no terreno restos de estruturas, que acabaram por ser destruídas. Obtivemos também a informação de que teriam ali aparecido ossadas e sepulturas idênticas às que recentemente ocorreram na estação da Fonte do Sapo (necrópole?).
Classificação: Villa / vicus.
Cronologia proposta: Séculos I a IV-V d.C..
Bibliografia: Além da citada, ALARCÃO (1988-a, 6/21 e 22).
Interpretação: Numa primeira análise, afora os testemunhos epigráficos (de si importantíssimos), não parece abundante o espólio proveniente desta estação. Talvez por culpa nossa, que a não prospectámos aturadamente, como mereceria. Importa, porém, que através de mapa atentemos no ambiente arqueológico que a rodeia: a pouco mais de meio quilómetro desenvolve-se a extensa estação da Fonte do Sapo / Casas Novas / Casal das Varandas; mais adiante, o Surdo ou mesmo o Vale Covo, e na retaguarda o Vimieiro. Por outras palavras: a estação arqueológica das Aldeias não pode ser encarada isoladamente. Ela ocupa uma posição dominadora e centralizante em relação a todo o contexto romano desta área, exercendo no meio um papel semelhante ao que Mouriscas (sede da freguesia) exerce hoje relativamente aos demais casais. Ora, tudo isto nos leva a crer que, mais do que uma simples villa rustica, estaremos talvez em presença de um vicus de certa importância. Tanto a malha de distribuição das estações, como o seu ordenamento, quase rectilíneo, rumo à confluência viária de Alvega, a tal proposta nos conduzem. Mais pesquisas, aqui como noutras partes, são necessárias. Porque os indícios obtidos, que vão do século I ao IV d.C., são já deveras significativos.
Villa / vicus.
Séculos I a IV-V d.C..
Numa primeira análise, afora os testemunhos epigráficos (de si importantíssimos), não parece abundante o espólio proveniente desta estação. Talvez por culpa nossa, que a não prospectámos aturadamente, como mereceria. Importa, porém, que através de mapa atentemos no ambiente arqueológico que a rodeia: a pouco mais de meio quilómetro desenvolve-se a extensa estação da Fonte do Sapo / Casas Novas / Casal das Varandas; mais adiante, o Surdo ou mesmo o Vale Covo, e na retaguarda o Vimieiro. Por outras palavras: a estação arqueológica das Aldeias não pode ser encarada isoladamente. Ela ocupa uma posição dominadora e centralizante em relação a todo o contexto romano desta área, exercendo no meio um papel semelhante ao que Mouriscas (sede da freguesia) exerce hoje relativamente aos demais casais. Ora, tudo isto nos leva a crer que, mais do que uma simples villa rustica, estaremos talvez em presença de um vicus de certa importância. Tanto a malha de distribuição das estações, como o seu ordenamento, quase rectilíneo, rumo à confluência viária de Alvega, a tal proposta nos conduzem. Mais pesquisas, aqui como noutras partes, são necessárias. Porque os indícios obtidos, que vão do século I ao IV d.C., são já deveras significativos.
Além da citada, ALARCÃO (1988-a, 6/21 e 22).