Coordenadas M - 910.956 (f. 311, 1980). O povoado encontrava-se implantado no planalto sobranceiro ao Zêzere, a uma cota de 298 metros, entre os sítios denominados Horta Grande e Conheira, junto ao caminho que conduz a esta, ocupando a área de dispersão arqueológica cerca de um hectare. Apesar de lhe passar pelo meio o velho caminho de acesso ao Zêzere e de ter sido noutros tempos (século XIV), como vimos, uma área bastante colonizada, tal como na “Conheira” é hoje rara a frequência deste local.
Idêntico ao da estação anterior, de cobertura pliocénica.
1 Material cerâmico: - Bordos e paredes de recipientes diversos uns lisos [EST. XVII - A a XVII - I, 1 e 3], com mamilo [EST. XVII - I, 6] e com furo de apreensão [EST. XVII - C, 3], com decoração puncionada [EST. XVII - I, 4] e incisa e puncionada, talvez campaniforme [EST. XVII - I, 4][foto 20, 4], fragmento de prato de bordo almendrado [EST. XVII - A, 3] e de taças carenadas [EST. XVII - C, 3, 4 e XVII - D, 1 a 4]; - Peso de tear quadrangular, fragmentado [Foto 20, 3] - “Ídolos de cornos”: dos dez fragmentos recolhidos [Foto 21], nenhum deles permite reconstituir na íntegra o formato original, mas supomos que não se deverão afastar tipologicamente de outros exemplares da zona, designadamente do povoado calcolítico de Constância, onde se recolheu um exemplar inteiro e mais alguns fragmentos. 2 Material lítico: - Machado de pedra polida, de anfibolito; - Enxós de pedra polida, de anfibolito; - Fragmento de clava, de xisto anfibólico [Foto 20, 2] [EST. XVII - I, 8]; - Polidor em xisto; - Conta de colar de xisto, de cor verde [Foto 20, 1] [EST. XVII - I, 9]; peças como esta apareceram na Anta 1 do Vale da Lage, em zona de contacto com o concelho de Tomar (OOSTERBEEK, 1990). Segundo este arqueólogo, o monumento tomarense dispunha de pelo menos dois níveis de ocupação, um primeiro Neolítico / Calcolítico inicial e outro posterior que poderia ir até ao Bronze; - Peso de rede, de xisto grauváquico (técnica de talhe A); - Mós planas, de grés (?), moventes e dormentes; - Indústria de sílex: fragmentos de lâminas, lamelas e lascas . Tivemos, entretanto, conhecimento da realização de outros trabalhos de prospecção e recolha sistemática no local. Assim, Leonilde Inácio e Gabriela Santos, em 1991 e 1992, sob orientação do Prof. Luís Oosterbeek, do Instituto Politécnico de Tomar, recolheram ali mais os seguintes artefactos: machados de pedra polida, lascas de sílex, um peso de rede em anfibolito, um fragmento de clava (?) também em anfibolito, uma mó plana, lâminas, e bastantes fragmentos cerâmicos, em que se incluíam diversos bordos lisos e pontilhados, pedaços de “ídolod de cornos” e um peso de tear (?). Pela mesma altura, também o próprio Luís Oosterbeek ali encontrou blocos aparelhados de xisto, dispostos em formato subcircular, tendo daí concluído que se trataria de “vestígios de possível fortificação calcolítica”.
Do Neolítico final ao Calcolítico pleno/ final/ Bronze inicial.
Povoado.
Para o estabelecimento do horizonte temporal desta estação, tomámos por base, principalmente, os dados relativos aos três principais tipos cerâmicos: a taça carenada, o prato de bordo almendrado e uma taça larga de bordo espessado internamente. Da sua análise fomos levados a apontar para uma cronologia compreendida entre o Neolítico final e o Calcolítico pleno da Estremadura (2700 - 2000 a. C.), com maior incidência de ocupação no Calcolítico inicial / pleno (2500 - 2000 a. C.). Todavia o fragmento cerâmico com decoração pontilhada pode apontar para Calcolítico final “Campaniforme”, senão mesmo já para o advento da Idade do Bronze, aliás como podem apontar os fragmentos de bordos da [EST. XVII - I, 2], com ligeira decoração incisa no lábio, a taça carenada baixa da [EST. XVII - D, 4], senão mesmo o bordo da [EST. XVII - G, 1] com ligeira canelura horizontal abaixo do bordo. Todas as formas cerâmicas representadas nas diversas estampas, definem os diversos tipos morfológicos encontrados nos povoados do concelho e que são de idêntica tipologia morfológica dos povoados calcolíticos do Baixo Alentejo e Algarve, razão da sua aplicação, como irectriz, na presente obra. Quanto à sua base económica, pelos testemunhos até agora conhecidos, o povoado indicia uma agricultura incipiente e com fraca representação de instrumentos (mós planas), alguma criação de gado (indirectamente testemunhada pelos pesos de tear) e alguma natural actividade piscatória no rio que lhe ficava aos pés (pesos de rede); isto para além da caça e da recolecção de alimentos espontâneos, que obviamente não deixaria de ocorrer. Aliás, a sua localização numa zona de charneca, sem terrenos adequados ao cultivo e desprovidos de água, salvo alguns pequenos hortados junto ao Zêzere, contrasta bastante com outros povoados calcolíticos de zona, como o da Cova dos Castanheiros (Constância), o do Bacharel/ Relvinha Verde (Tramagal), ou o do “Caneiro” (S. Miguel do Rio Torto), excepcionalmente bem situados próximos na desembocadura de rios, e em que a agricultura, testemunhada pela abundância de mós manuais, desempenharia um papel bem mais activo. E pode então perguntar-se: Porquê a localização do povoado neste espaço? Qual o factor ou móbil principal para a fixação das suas gentes? Como poderia naqueles 5 a 10 mil metros quadrados sobreviver uma comunidade humana, cifrável entre os 50 e 150 habitantes (1), sem outros meios de subsistência, sem possibilidades de criar excedentes para eventuais trocas? Não existiriam por ali outros atractivos para a comunidade, que complementassem ou suprissem o mísero produto da actividade agro-pastoril? A questão é pertinente e conduz-nos de imediato ao estabelecimento de uma correlação entre o povoado do Maxial e a extensíssima conheira anteriormente descrita, localizada quase no sopé do povoado, a cerca de um quilómetro. De facto, quem como nós percorreu a pé toda a zona da conheira (ao fundo) e do povoado calcolítico (lá no alto) dificilmente concebe outro local tão propício ao assentamento de uma povoação, que simultaneamente servisse de defesa e base de operações para controlo da mineração como aquele. Isto não significa, porém, que esteja encontrada a solução para as várias dúvidas e questões levantados pela conheira. É apenas uma hipótese para o início da exploração ou lavagem dos conhos e nada mais que isso, pois, como vimos, não se detecta por ali o menor vestígio de metal. E esta hipótese não é totalmente descabida se tivermos presente a conheira Calcolítica do Penhascoso (PEREIRA, 1972: 17-64). Todavia os testemunhos materiais recolhidos nas conheiras apontam para contextos mais recentes até ao romano: escória de cobre e lingote de chumbo na conheira do Caratão [PEREIRA, 1972: 22 e 1970 (a): 216], dois caldeiros de bronze da conheira da Terraguda - Envendos da Idade do Bronze ou Idade do Ferro (informação oral da Drª. Maria Amélia Pereira Bubner, a quem se agradece a informação prestada), uma lança de ferro da conheira do Touro - Vila de Rei da época romana (BATATA E GASPAR, 2000: 17), para além das nossas referências anteriores. Para conhecimento do processo de exploração na época romana consultar (BATATA e GASPAR, 2000: 23 e sgs.) Para além dos escassos blocos de xisto referidos, que segundo Oosterbeek seriam vestígios da fortificação, não se encontram mais indícios de estruturas defensivas ou sequer habitacionais. A terem existido, decerto que seriam bastante modestas; e assim sendo, cremos que o povoado do Maxial deva corresponder aos demais povoados conhecidos na região, todos aparentemente sem fortificação. Também até ao momento não foi recolhido em nenhum qualquer testemunho da metalurgia do cobre, embora se encontre bem documentado já no Calcolítico pleno de Leceia e, na nossa região, somente da Anta da Foz do Rio Frio proveio um punhal, datável de cerca 2000 a. C. (Calcolítico pleno da Estremadura). Também não apareceu o menor vestígio de ouro, metal nobre que já então era explorado e que a tradição costuma associar às conheiras (2). Contudo, é de reter a informação segundo a qual estão oficialmente inventariadas na zona (antiga freguesia do Souto) mais de uma dezena de minas, entre as quais quatro de cobre.
Não entrando em linha de conta com o nosso primeiro registo em 1989, COROADO e CABRAL (1995), BATATA, GASPAR e BATISTA (1996), OOSTERBEEK (1997) e CRUZ (1997).