Coordenadas N - 026.575 (f. 356, 1972), no vale fértil e densamente irrigado, de ambos os lados da EN-2, entre os Km 427 e 428. Área humanizada de longa data, com o “casal” (moradia e instalações agro-pecuárias) a uns 150 m. Este vem já citado num documento notarial de 28.3.1590, mas a sua antiguidade será decerto muito maior. É excelente terreno de cultivo, que até permite o arrozal, ocorrendo apenas na orla algum mato e, nos planos superiores, o sobral.
Terrenos aluviais quaternários, a par de formações MP do Miocénico e Pliocénico indiferenciado, que ravinam os altos relevos dos planaltos circundantes.
Cerâmica romana de construção (fragmentos de tegulae, imbrices e lateres, de diversos formatos); Cerâmicas comuns: bordos [EST. XVI – E, 2, 3], fundo de ânfora [EST. XVI – F, 4] e muitos outros fragmentos [EST. XVI – G, 1, 2]; - Terra Sigillata sudgálica [EST. XVI – F, 1 a 3], hispânica [EST. XVI – E, 1], Clara C e Clara D; Mós manuárias, fragmentadas, duas delas girantes (tipo G1 de Conímbriga); Blocos de cantaria lavrada, alguns de grande tamanho; Vidros: bordos de Taças de copa arqueada e bordo de arestas e “engrossado ao fogo” dos Séc. IV-V d.C. [EST. XVI – E, 4, 5]; Conta de colar vítrea, vermelha [EST. XVI – G, 3]; Pregos de ferro (vários fragmentos); Escórias (de cobre ou bronze), em reduzida quantidade; Numismas: 1 - Duas moedas de bronze com banho de prata, do imperador Valeriano (253-260 d.C.), uma com a legenda “APOLINI CONSERVA...” e a outra “FIDES MILITVM” (LIZARDO, 1987); 2 - Moeda de bronze, follis de Constâncio II (337-350 d.C.) - Anv.: CONSTAN(tius), cabeça laureada à direita. Rev.: GLO(ria Exerc)ITVS, dois soldados de pé com estandarte. Marca R*P; 3 - Moeda de bronze, follis de Constantino I (307-337 d.C.) - Anv.: CONSTANTINVS (P.F.AVG), cabeça laureada à direita. Rev.: (Soli)NVI - CT(O)COMITI, indecifrável; 4 - Moeda de bronze, fragmentada, antoniniano de Galieno (259-268) - Anv.: GALLIENVS AVG, cabeça raiada à direita. Rev.: VBERITAS AVG, mulher de pé com estandarte na mão direita e cornucópia na esquerda; 5 - Moeda de bronze muito fragmentada de Tetricus (?) (270 d.C.) - Anv.: Cabeça raiada à direita; Rev.: mulher de pé. N. B.: Estes são os exemplares identificáveis que chegaram ao nosso conhecimento. Mas há notícia de muitos mais e alegadamente desta estação, o que não será de estranhar (basta recordar o testemunho de SAA, que fala de “inumerável quantidade”). Estruturas postas a descoberto na sequência de trabalhos agrícolas e por nós observadas, Junho de 1991[Fotos 14 e 15]. Estas estruturas eram, na sua maioria, constituídas por pequenos muros (de 550 a 400 mm de espessura), em que foram utilizados como materiais de construção fragmentos de tijoleiras, tegulae, imbrices, um ou outro calhau rolado de quartzite e blocos aparelhados em granito. No seguimento de um destes muros apareceu um pavimento, na base de materiais cerâmicos. Também se observou um outro muro, decerto mais tardio, que cortou a estrutura anterior, e em que foram utilizados fragmentos de granito e calhau rolado de quartzite. Do pavimento de tijoleira provieram os numismas n.ºs 4 e 5, enquanto o n.º 3 foi encontrado um pouco acima e deverá pertencer a uma fase mais tardia, em correlação com o muro de pedra. A terraplanagem efectuada abrangeu uma área de cerca de 4000 m2, sendo visíveis neste espaço sinais evidentes da existência de outras estruturas, decerto prolongamento das atrás referidas. Após a observação atenta do local, ficámos convictos de que as estruturas de modo algum estarão confinadas à zona terraplenada, uma vez que os vestígios se estendem muito para além desta, numa área de dispersão que poderá atingir no total os cinco hectares.
Villa romana (?).
Alto e Baixo Império (séculos I a IV-V d. C.).
A avaliar tanto pela mancha de dispersão cerâmica como pela qualidade dos achados, pensamos que Água Branca tenha sido (e seja ainda) uma área de grande interesse arqueológico relativamente ao período romano. Torna-se, porém, extremamente difícil, sem uma intervenção de fundo, sistemática e metódica, determinar com alguma precisão o evoluir da ocupação humana do local, o tipo de povoamento, a localização dos principais espaços funcionais, as características das construções, enfim, a relação desta com as demais estações romanas da região. À primeira vista, tomando em consideração a geomorfologia e a extraordinária uberdade do local, parece que nos deveríamos encontrar perante mais uma villa rustica. O confronto com diversos materiais de funções especificamente agro-industriais, caso das mós manuais e das escórias de fundição, leva a alimentar tal suposição. Há, não obstante, que equacionar outros aspectos da realidade arqueológica, designadamente o aparecimento, segundo Mário Saa, do tesouro numismático da época republicana a apreciável profundidade (cerca de 4 metros), a existência de estruturas arquitectónicas de diversas épocas e, sobretudo, a inserção desta estação numa malha de outras estações bem entrosadas e até bem alinhadas e equidistantes entre si, como são as que bordejam a via principal que de Olisipo por Scallabis se dirigia a Emerita. Afirmar com Saa que se tratava de “um lugar estalajadeiro de entroncamento” (op. cit.: 266) ou “a mansão do pretório de Arício, Aritium Praetorium” (op. cit.: 29 e segs.), poderá não passar de mera conjectura, sem outro fundamento que não seja a correspondência de milhas do Itinerário de Antonino Pio. De facto, as 28 milhas romanas (= 41,5 km)(2) tomadas por este como distância do Praetorium a Abelterium (Alter do Chão) batem precisamente aqui, e não andarão longe deste local as presumíveis 38 milhas do mesmo roteiro (= 56,3 km) para o outro lado, se contadas a partir de Santarém, ou seja, entre Scallabis e Aritium Praetorium. É verdade que, em certa medida, o sítio, como que enterrado num vale, parece não se coadunar muito bem com um “pretório”, lugar onde o pretor administrava a justiça, com o seu palácio e a sua guarda. Mas não podemos esquecer que há ali ainda muito por prospectar, que a estação se prolonga muito para cima do vale - há vestígios mesmo nas partes mais altas - e, se atentarmos bem no espólio descrito, nada surgiu até agora que nos impeça de considerar esta última hipótese. Com efeito, na Água Branca de Cima, estamos ainda bem inseridos em território ariciense; para o transeunte que pretendesse seguir do oppidum/civitas de Aritium Vetus (Alvega?), ou dos portos de Abrantes, ou de Sellium (Tomar) para sul, ou de Scallabis (Santarém) para Leste, este era um posto-chave de passagem quase obrigatória, com água todo o ano e mantimentos assegurados, não sendo, por conseguinte, de excluir a localização aqui de uma mansio, com a sua pars rustica, também eventual estação de muda (mutatio) da rede viária, que o Itinerário não deveria deixar de assinalar. Comparativamente às estações seguintes da área do Tamazim, a Água Branca não reúne piores condições para poder arrogar-se de ser a Aritium Praetorium dos tempos romanos. Mas a despeito de tudo a estação da Venda das Mestras apresenta caracteristicas de implantação bem melhores que Água Branca de Cima para se poder ali localizar a antiga Aritium Praetorium, independentemente do número de milhas.
SAA (1957, I: 264)(1) e LIZARDO (1987: 7-8); ALARCÃO (1988-a, 6/86).