Coordenadas N - 103.778 (Ibidem). No sopé Oeste do outeiro, no terreno de nateiro do Casal. Dada a riqueza agrícola do local, a presença humana aqui é praticamente constante. O Casal da Várzea aparece-nos documentado já com esta designação nos finais do século XVI. Mais apurámos que em 1639 era juiz de Alvega um morador deste Casal, António Rodrigues..
Depósitos de terraços fluviais Q4 de 8-15 metros do Plistocénico.
Referências (que servem para as estações do Casal da Várzea, I - II -III):
-A - Dos tempos pré-históricos:
1. Disco de quartzite. Lang. [EST. X][Foto 4]
2. Mó plana de granito. [EST. XI]
-B - Do período proto-histórico: Cerâmica comum, de pasta grosseira, micácea e quartzosa da II ª Idade do Ferro [EST. XII, 1 a 5][EST. XIII, 1 a 5], constituidos por bordos com algumas decorações incisas [EST.XII, 5] ou com leve canelura vertical [EST.XII, 1], pança com decoração impressa [EST. XIII, 1] e fundos diversos [EST.XIII 2 a 5].
-C - Dos tempos da dominação romana [não contando com os materiais supracitados] 1. Cerâmica de construção: fragmentos de tégulas, ímbrices e ladrilhos, apresentando alguns destes impressões de dedadas.
2. Bordo de dolium [EST. XV, 1]
3. Terra sigillata sudgálica: Fragmento de parede com verniz em ambas as superfícies.
4. Vidros [EST. XIII, 6, 7 e 8]: Fragmentos de bordos, pertencentes a taças de copa arqueada e bordo engrossado ao fogo, que poderão ser integrados nos tipos de perfis sem ornamentação, de colecções de vidros romanos já conhecidas, designadamente as publicadas por J. e A. Alarcão, Vidros Romanos de Conimbriga: 120-124. Cronologicamente serão datáveis do século IV / inícios do V d.C..
-D - De época incerta (romana?)
1. Estruturas - sequência de pilares [Fotos 5, 6 e 13]
Este interessante conjunto, sem dúvida muito antigo mas também muito estranho, tem sido geralmente atribuído à operosa fábrica romana. A sua função não parece, todavia, fácil de discernir e por isso tem sido objecto de opiniões algo contraditórias. Um dos primeiros autores a chamar a atenção para ele, ao que supomos (por não existir no Tejo a montante de Abrantes qualquer outro edifício comparável), terá sido Francisco d’Olanda. Para este conceituadíssimo antiquário-artista de Quinhentos a função era, obviamente, de ponte:
Fizeram {os romanos sobre o Tejo} outra ponta magnifica acima d’Abrantes, onde estão os pegões e montes de pedra, e esta quisera redeficar o Infante Dom Fernando {1507-1534} que Deos tem, segundo dixe a meu pai Antonio d’Olanda tambem que Deos tem (3)“
Já para Jorge Cardoso (meados do século XVII), conforme o testemunho atrás citado, a função não seria outra que aqueduto: “...pilares, sobre que estribava o famoso cano”, para trazer à cidade a água necessária ao abastecimento dos habitantes, captada numa ribeira próxima, talvez do outro lado do Tejo e vinda por gravidade. Enquanto para o pároco alveguense de meados do século XVIII, o objectivo era já outro, pois a água correria em sentido inverso, da margem esquerda do Tejo para a direita, com vista à irrigação da Lezíria: “...passava encanada sobre um grande braço do rio (...) para regar huma liziria ou campo, que no Inverno se vê circundado do mesmo Tejo”.
Opinião diferente de todas estas manifestou Manuel VICTÓRIA um licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas que foi muitos anos professor no colégio de Alvega e que, portanto, teve oportunidade de conhecer bem o património arqueológico da freguesia. Atentemos, pois, nas suas curiosas observações:
“No velho leito do Tejo, a começar da margem esquerda (...) vêem-se 4 pegões quase intactos, 15 derrubados e contando-se a distância do primeiro até à cepa do último observável, já na falada lezíria, pode contar-se por cerca de 42 o número total. Tais pilares têm a forma de pirâmides pentagonais com vértice e inclinação para montante e são denominados paredões na linguagem popular (...) Há neles, em cada face, determinados buracos que se verifica não terem servido para os andaimes por estarem em séries sobrepostos a pouca distância e serem desnecessários também, devido ao número, para esteio do relatado cano de água. Para que serviriam então? Verifica-se que os buracos existentes nas faces dos pilares (nas faces transversais à corrente do rio) têm uma certa disposição e jogam de face para face, ainda que não tenham uma demarcação absolutamente geométrica, por não se tratar de obra com pretensões de perfeição e antes utilitária; é positivo que duns para os outros pode endireitar-se qualquer barra de topo. São dispostos quase na periferia, de cada extremidade, de cada face, deixando ao meio, no dorso dos pilares, espaço bastante para encher de terra ou erva, sendo de notar que as duas idas de furos vão até quase ao cimo dos pilares, fechando em triângulo acutângulo. É curioso acentuar que os furos apresentam desgaste considerável na borda de jusante, firmando mais a convicção de que sofreram pressão advinda de montante. Afastando mais a hipótese de terem servido alguma vez de apoio a esteios que sustivessem o cano da passagem da água para a cidade, porque nesse caso o desgaste seria na parte inferior, o que se não constata. Que concluir? Os romanos estancaram ali o Tejo para irrigarem os nateiros à borda do rio e a falada lezíria que, deste modo, não precisava de água de outra origem. Os romanos recorreram ao açude, não de argamassa e pedra na totalidade, mas sim de pilares - à distância de nove passos uns dos outros - para que no Inverno, uma vez tiradas as vigas ou barras de ferro e as tábuas com que era feito o açude, os barcos pudessem continuar a sulcar o rio e até mesmo o peixe a arribar.(4)“
Resumindo: para este autor, os pegões, ao açudarem o Tejo naquele ponto, obrigando-o a mudar de direcção, serviam sobretudo como sistema regularizador dos nateiros face a intempéries e complementarmente para irrigação. Esta ideia torna-se mais evidente quando, mais adiante, afirma que “há determinado espaço onde parece convergirem várias condutas de água, dando a ideia de que era ali o depósito principal” (p. 55) e que “ainda não há muito tempo foi encontrada parte de uma antiga levada, que tomava a direcção dos pegões” (p. 57).
A hipótese apresenta, de facto, alguma pertinência, mas revela também algumas fragilidades: Por exemplo, como explicar a existência de talhamares nos pegões, que em princípio serviriam para cortar a água, mais do que para a estancar? E como explicar a diminuta dimensão dos buracos, que não davam seguramente para neles serem introduzidas grossas vigas capazes de resistir ao ímpeto das correntes? Não poderão os pegões ter servido mais para suportar pequenos tabuleiros de madeira (a modos de ponte temporária), a fim de estabelecer a ligação entre as duas margens do Tejo Velho (5)? Não obstante, importa salientar em abono da “tese victoriana” que ainda hoje se realizam, quase anualmente, um pouco acima da zona dos pilares, obras de restauro do dique de protecção, com pedras, estacas e marachas, com vista a impedir que o Tejo retome o seu curso antigo, que é - quer os homens gostem ou não - o que a Natureza ainda prefere (6).
-A - Acampamento, povoado (?)
-B - Villa romana (?) / Vicus, mais tarde civitas (?)
A - 1. Languedocense; 2. Do Neolítico ao Bronze
B - Idade do Ferro
C - Romano
(1) É um tronco de coluna granítico, que teria cerca de 2 metros de altura. SAA (Grandes Vias, II: 118) viu nela um feitio de miliário, mas anepígrafa. Os actuais proprietários chamam-lhe carinhosamente o polícia e admitem que tenha vindo de Ourique, há muitos anos [Foto 9]. Também no Casal Ventoso, já no alto, observamos também junto às casas uma base de coluna romana [Foto 10], assim como junto à vivenda da Quinta dos herdeiros de Adriano Simão [Fotos 7, 8].
(2) Pensamos que se quereria referir à ribeira das Eiras, na margem direita do Tejo, cujas águas seriam captadas a montante dos pegões e canalizadas para a margem esquerda. Para compreender o sistema deverá ter-se presente que o curso do rio era outro, onde estão os pegões, pelo leito velho ou Tejo Velho.
(3) Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa, ed. de Jorge Segurado, 1571, fl. 19 v.
(4) O Homem de Arício, tese de licenciatura apresentada à Faculdade de Letras de Coimbra em 1952: 54 A.
(5) Esta ou uma proposta semelhante pareceu-nos ser facilmente admitida por Jorge de Alarcão, em visita que fizemos ao local em 9.06.1984. Vejam-se também deste autor as referências feitas em 1985-b e 1988-a, se bem que demasiado curtas.
(6) Contudo, em 1833, ainda se defendia que Na Cascalheira das Commissões (sítio da Várzea) deveria (el-rei) construir um parallelogramo de pinheiros, cheio de pedras, de seis braças de comprimento pouco mais ou menos, duas de altura e uma e meia de grossura, para obrigar o Tejo a tomar a direcção recta que já noutro tempo teve; desta sorte a navegação se faria em duas horas menos do que actualmente se faz, tal é o rodeio que as águas têm tomado. (Memoria sobre a canalização do rio Tejo de D. Manuel Martinini, in Boletim Cultural, C.M. de Tomar, n.º 15, 1991: 187).