Localização: Coordenadas M - 964.783 (Ibidem), próximo ao cemitério de Alferrarede, numa plataforma ampla à cota de cerca de 45 metros, entre a linha de caminho de ferro da Beira Baixa (a Norte) e o Tejo (a Sul), como que debruçando-se sobre o vale fluvial. Ocupará uma área de 25 000 m2
Meio geológico: Depósitos de terraços fluviais Q3 25-40 metros do Plistocénico, circundados a Norte por terraços Q2 e formações MP, a Este por terraços Q2-3 e formações do Pré-câmbrico, a Oeste pelo maciço de Abrantes também do Pré-câmbrico, e a Sul, a cota inferior, pelo terreno de aluvião ou nateiro que dá sobre o Tejo. Meio botânico: Era dantes um grande e “comprido” olival, a fazer jus ao topónimo; mas ao presente (1995), se bem que continue a ser terreno de lavra mecanizada, é na sua maior parte um descampado.
Espólio: Pelo campo abunda a tão comum cerâmica de construção (tegulae, imbrices, lateres...). Observam-se ainda alguns blocos aparelhados de granito, que os arados vão arrancando das estruturas habitacionais primitivas, assim como ainda se observa a existência de opus signinum e fragmentos de aparelho constituído por argamassa de cal, areia e calhau rolado de quartzite. Mas o espólio até hoje aparecido à superfície inclui matéria muito mais diversificada, desde cerâmicas comuns (fragmentos de bordos, asas e fundos de vasilhas; de dolia, etc.), ladrilhos, tijolos de colunas, passando por produtos mais finos (terra sigillata hispânica e Clara D, contas de colar) até elementos vítreos e metálicos (numismas, pregos de ferro, escória de ferraria), mós manuárias e fragmentos ósseos. Se bem que em contexto plenamente romano, apareceram ainda algumas lascas, lâminas e núcleos de sílex. Analisemo-lo mais pormenorizadamente:
1. Tegulae: Um dos exemplares apresenta na superfície superior a impressão de 20 dedadas, formando um conjunto interessante mas de difícil interpretação [EST. VIII, 2].
2. Tijolos de coluna: Dos 12 exemplares identificados, todos pertenciam a 1/3 de tronco de coluna.
3. Tijoleiras: Observámos cerca de uma dezena de exemplares inteiros. Dimensões em mm [Comp./Larg./ Esp.]: [310x310x50] [275x240x49] [270x130x60] [260x130x60] [260x130x45] [205x205x60] [113x100x44]. Este último apresenta na superfície superior um conjunto de 12 impressões digitais (dedadas), fornecendo um aspecto decorativo interessante. Um outro apresenta certa particularidade [EST. VIII, 1].
4. Cerâmica comum: Meramente a título de exemplo, registamos três bordos, sendo dois de dollium [EST. VII, 2 e 3] e um de ânfora [EST.VIII, 3].
5. Terra sigillata Hispânica: - Fragmento de bordo com verniz em ambas as superfícies, que tipológicamente é assemelhável a tipos de perfis de Conímbriga (forma Kitterling 8), sendo por isso datável do período flaviano-trajano (séc. I-II d.C.) [EST. VIII - A, 4].
- Fragmento de parede com verniz em ambas as superfícies, apresentando na superfície exterior decoração constituída por um ramo bifoliado entre dois círculos, tendo o da esquerda um outro motivo no interior difícil de identificar e o da direita apenas traços vestigiais. Este motivo, porém, não só é pouco elucidativo como também não foi suficiente para que lhe encontrássemos paralelos exactos nas publicações de Conimbriga. O mais aproximado nas Fouilles, ainda assim, pareceu-nos ser o exemplar n.º 40, forma Dragendorff 30; pelo que, com as compreensíveis reservas, consideramos o nosso exemplar datável da segunda metade do século I ao início do século II d.C..[EST. VIII - A, 5].
- Fragmento de parede apresentando na superfície exterior decoração constituída por um friso horizontal, tendo de imediato vestígios de três círculos concêntricos. O pequeno motivo decorativo deste fragmento não permite indicar com segurança paralelos exactos nos exemplares de Conímbriga. Contudo, círculos concêntricos acima de dois frisos ocorrem dentro da forma Dragendorff 37 (forma n.º 152). Deste modo e com as mesmas reservas, colocamos o nosso exemplar entre o fim do século I e o meio do séc. II d.C. [EST. VIII - A, 6].
Terra sigillata Clara D:
- Fragmento de bordo dispondo de um ligeiro friso junto ao lábio na parede externa. Apresenta verniz só na parte interior afectando unicamente a zona do bordo, de modo irregular na superfície exterior. Cronologicamente parece-nos também assemelhável a tipos de perfis conimbrigenses (ex.: forma Hayes 60), pelo que será datável dos começos do século IV a meados do V d.C.. [EST. VIII - A, 1].
- Fragmento de bordo em aba horizontal, com verniz em ambas as superfícies. Dispõe na aba superior duas leves caneluras com 3 mm de largura, uma a 5 mm do bordo e a outra a 14 mm desta. Tendo em conta os perfis conhecidos de Conímbriga (forma Hayes 59, Lamboglia 51 e 51 A), será cronologicamente datável do século IV - inícios do V d.C. [EST. VIII - A, 2].
- Fragmento de bordo, conservando vestígios de verniz na parte exterior e raros na parte interior. Dispõe na parte superior de uma leve incisão, a 4 mm do lábio, que o acompanha a todo o diâmetro. Comparativamente a Conímbriga (forma Hayes 67, Lamboglia 42), é datável do século IV-V d.C. (360-420) [EST. VIII - A, 3].
6. Contas de colar:
- Diâm.: c. 13 mm; Diâm. furo central: 7 mm; Alt./ Esp.: 7 / 3 mm; Cor: azul; Material: pasta vítrea. Descrição: metade de uma conta de colar de contorno circular e secção transversal em forma de D, similar às provenientes da Pedreira (Rio de Moinhos) [EST. VIII - A, 8].
- Diâm.: 4,5 mm; Diâm. furo central: 1 mm; Comp./ Esp.: 6 / 1,5 mm; Cor: verde claro - branco; Material: esmeralda ou turmalina. Descrição: conta inteira, de contorno rectangular e secção transversal hexagonal [EST. VIII - A, 9].
7. Vidros: Fragmento de bordo engrossado e polido ao fogo, pertencente a uma taça de copa arqueada e parede muito aberta, datável do século IV-V d.C.; cor verde relva; apresenta na parede externa, abaixo do bordo, a aplicação de um fio com a mesma coloração [EST. VIII - A, 7].
8. Mosaicos: tesselas multicolores (brancas, pretas, amarelas).
9. Numismas: Consta que por volta de 1950 teria aparecido por estes sítios um tesouro monetário. A referência ouvimo-la a várias pessoas entendidas no assunto, que preferiram o anonimato, e nós próprios pudemos testemunhar um ou outro exemplar e asseverar que eram efectivamente romanos. Damos de seguida notícia de algumas moedas que nos vieram às mãos ou de que tivemos conhecimento directo, bem como de um follis, propriedade da Junta de Freguesia de Alferrarede. Comecemos por este: 9.1 - Anverso: CONSTANTINVS AVG. Busto à direita com elmo, paludamento e armadura. Reverso: PAX PERPETVA. Figura (pax) de pé, olhando à esquerda, de pernas cruzadas segurando na mão direita um ramo de oliveira e na esquerda um ceptro, apoiada a uma coluna; à altura da cintura as letras PR (populus romanus). Marca: RT. Diâm./Esp.: 21 / 1,5 mm.
Observações: Moeda de cobre, razoavelmente conservada. Follis de Constantino I, emissão de Roma (?) de 318-319 d. C.; Ref. RIC 143 (vol. VII: 314).
9.2 - A/: DIVO CLAVDIO. Cabeça de imperador (Cláudio II), à direita. R/: CONSE(cratio), com altar. Cronologia: Moeda póstuma de Cláudio II, cunhada talvez no reinado de Quintilo (269-270 d.C.).
9.3 - A/: D. N. CONSTANTIVS (PF.AVG). R/: REPARATIO. Cronologia: 351-354 d.C.. 9.4 - Minimi, moeda do final do século IV d.C.. 9.5 - Moeda com o nome e efígie do imperador Maxêncio (306-312 d. C.), 23 mm de diâmetro, publicada no Jornal de Alferrarede, n.º 145, de Novembro de 1997.
10. Metais: Prego ou clavis (cunha?), fragmento em ferro, faltando-lhe a zona da cabeça e sendo a secção transversal da ponta sub-quadrangular.
11. Mós manuárias dormentes (2), tipos D2 e D3 de Conímbriga.
12. Fragmentos ósseos: Foram recolhidos nesta estação à ordem da Junta de Freguesia local e encontram-se depositados na sede da mesma. O seu competente estudo laboratorial, por nós solicitado, foi levado a efeito pela Dr.ª Ana Rosa Cruz, da Escola Superior de Tecnologia de Tomar, a quem reiteramos os nossos agradecimentos. De acordo com o seu relatório, a estação arqueológica em questão tem condições de preservação de restos orgânicos (fauna) relativamente boas, apesar de o material se apresentar extremamente fragmentado. De um total de 20 fragmentos ósseos, que foram convenientemente classificados, apuraram-se: 13 de cervídeos, 2 de bovídeo, 2 de ovicaprídeo, mais 2 provavelmente também de ovicaprídeo. Dos restos orgânicos recolhidos há ainda a assinalar a existência de indústria utilizando um osso longo polido, para servir de espátula ou furador (?). “Apesar de se desconhecer a distribuição dos ossos na estação, as condições em que foram recolhidos e qual a correlação existente entre estes materiais e possíveis estruturas arqueológicas, pode colocar-se a hipótese de serem restos de cozinha. A cronologia também ela é hipotética. Partindo do princípio que estes materiais são recolhidos na estação romana, e observando a forma como todos eles estão fragmentados, é talvez provável tratar-se na sua maior parte de animais domésticos, à excepção de alguns ossos de cervídeo. Qualquer destas amostras é demasiadamente pequena para a podermos tratar em termos de número mínimo de indivíduos. Há ainda que ter em atenção o sempre possível remeximento, que não nos dá garantias relativamente a camadas ou estratos. Por outro lado, não se justifica uma apreciação da amostra em termos percentuais, já que ela é muito pequena para ser tratada estatisticamente. Estratigraficamente é também impossível caracterizar estas amostras, podendo-se porém referir uma quantidade muito grande de cervídeo, talvez cervus elephus, referenciando provavelmente a actividade de caça. Devido à ausência de dados seguros, toda e qualquer conclusão pode ser sempre invalidada quando não se possui um quadro geral de apreciação que fortaleça, ou faça tombar, as conclusões que se retiram quando se efectua um estudo particular. Assim, o tipo de conclusões que se podem retirar serão sempre genéricas e em pouco contribuirão para visualizar um conjunto de fenómenos que se pretenda estudar.”
Classificação: Tal como a estação Q.ta das Necessidades II, é de presumir aqui um habitat do tipo villa rustica, eventualmente englobável num conjunto habitacional mais vasto - Vicus (?)
Cronologia proposta: Séculos I a IV d.C..
Nota de Revisão: valor
Bibliografia: BATISTA (1995).