O lugar, com sua igreja de Santa Maria (dos Matos), já existia no século XIII, integrado nos domínios da Ordem de S. João do Hospital de Jerusalém (ou dos Hospitalários). Sabe-se que a paróquia foi filial da matriz de Belver, da mesma Ordem, que a dada altura passou a denominar-se de Malta. Todavia, apesar de a igreja e alguns herdamentos locais dependerem dessa Ordem, cuja sede portuguesa era no Crato, a aldeia, que nunca foi muito populosa (1), pertencia ao termo de Abrantes e a este concelho se manteve ligada ao longo dos tempos, com excepção de breve lapso de tempo por ocasião das reformas liberais do século XIX.
Até ao momento em que isto escrevemos (1995), Aldeia do Mato forneceu apenas cinco sítios arqueológicos para este inventário; a saber: uma “conheira (2)“ e um hipotético casal no Bairro Cimeiro, ambos de incerta localização temporal, dois conjuntos megalíticos (necrópoles) no lugar da Jogada e um outro no Vale Chãos, conjuntos estes que poderão ser associações periféricas de um povoado calcolítico. Contudo, não enjeitamos a possibilidade de existirem outras estações nas circunjacências, já que o levantamento ficou longe de ser exaustivo. Topónimos como Cabeça Gorda, Cabeço da Casa Velha, Carreira do Mato e Vale da Pedra, podem traduzir eventualmente antiguidades de assinalar. Mesmo defronte, na outra margem do Zêzere, já no concelho de Tomar, ficam-lhe as Antas do Vale da Lage (OOSTERBEEK, 1991, e BATATA, 1997: 140) e a Chã da Conheira (BATATA, 1997: 246)...
Para além de tudo isso, é muito provável que a aldeia constituísse noutros tempos um importante e estratégico ponto de passagem: era ali perto, na Barca da Esteveira, junto à foz da ribeira do Pessegueiro, um dos principais atravessadouros do Zêzere, - donde ficaram os topónimos Estrada Larga (na margem direita) e Bairro da Estrada (na esquerda) - e por ali passava ainda em meados do século XVIII, mesmo junto à igreja paroquial, uma das estradas que vinham de Coimbra para Abrantes (3). Por outro lado, fluiria por ali o trânsito vindo do Souto e demais lugares ao Norte do concelho, pela Carreira do Mato, com destino a Martinchel, Rio de Moinhos e mesmo Abrantes.
O recobrimento de boa parte dos terrenos ribeirinhos, precisamente os melhores, pela albufeira do Castelo de Bode, alterou substancialmente a paisagem primitiva e veio contribuir para tornar as pesquisas arqueológicas mais difíceis.
(1) Aquando do “numeramento” de 1527, Aldeia do Mato era uma “vintena” que contava apenas 15 “vizinhos” (termo que se pode interpretar por fogos, chefes de família ou cabeças de casal, que avizinhavam entre si, correspondendo a uns 60 habitantes). Contudo, dois séculos depois já se contavam ali 84 vizinhos (CARDOSO, 1747) e em 1758podia o pároco e reitor da freguesia contabilizar 110 fogos, sendo as pessoas de maior idade 321 e menores 44, a que se poderiam juntar mais 11 vizinhos dispersos por 10 pequenos lugares (a saber: Bairros, Cabeça Gorda, Carreira do Mato, Rio de Moinhos, Casinha, Medroa, Vale da Pedra, Vale dos Chãos, Fontainhas e Figueiras).
(2) Por conheira deve entender-se o local onde existem amontoações de calhaus ou cascalho de consideráveis dimensões (os conhos), que são matéria residual resultante da exploração mineira a céu aberto, por desmontagem de terreno em cortas, geralmente para lavagem de ouro. Adiante faremos referência aos muitos destes sítios localizáveis ao longo das margens abrantinas do Zêzere e da ribeira de Codes, mas existem também nos vizinhos concelhos de Tomar, Vila de Rei, Sardoal e Mação. Algumas apresentam extensões enormes de vários quilómetros. Contudo, não nos parece possível estabelecer para todas uma cronologia geral. A Chã da Conheira (Alverangel, S. Pedro de Tomar), por exemplo, a avaliar pelo seu contexto, parece apontar para uma exploração “durante a Pré-história”; já a conheira da Lagoa, aos pés do Castelo Velho do Caratão, que apresenta uma extensão aproximada de 2 km, insere-se (segundo HORTA PEREIRA, 1970: 29), num ambiente arqueológico que poderá recuar aos tempos eneolíticos.
(3) ANTT, Diccionario Geographico de Portugal (vulgo Memórias Paroquiais), vol. 23, n.º 93, item n.º 6.